Blog 8 - Compartilhe Notícias
Cadastrar um Novo Blog   Últimas Notícias   Notícias Populares
Login

Esqueci minha senha

Não tem cadastro?

E-mail:
Senha:
 

Trabalho: A Grande Luz - Autoria de Hélio de Araújo

 

Descrição

Ao completar vinte e um anos de idade quis ser professor. Fiz vestibular e fui aprovado para a área da Matemática. Poucos dias antes de ingressar na faculdade, tive um acidente de moto e fiquei tetraplégico. Fiz um longo tratamento de reabilitação. Fiquei sem atividades laborativas durante seis. Um amigo que dava aulas particulares sugeriu que eu fizesse o mesmo. Eu, por vezes, comentava com parentes sobre essa perspectiva, porém não acreditava em minha capacidade. Amigos enfatizavam os benefícios que uma ocupação poderia me trazer e me deram livros.Inscrevi-me novamente para o vestibular e um vizinho, que tinha sequela de paralisia cerebral, durante um mês inteiro ajudou-me a estudar. A dificuldade na articulação de palavras, característica da deficiência dele, não atrapalhou em nada os nossos estudos, e ele revisou comigo parte dos conteúdos do Ensino Fundamental. Logo depois veio outro amigo, que passou um tempão tendo a paciência de me preparar para realizar a atividade tão importante. Paralelamente a isso, eu recebia a meninada da vizinhança e ajudava na realização de tarefas escolares. Meu quintal vivia cheio de estudantes. Alguns deles, do primeiro grau maior, vinham me procurar para lhes explicar certos assuntos. Certa vez, um menino apresentou-me uma conta de dividir e não consegui, de maneira nenhuma, acertá-la. Tentei resolvê-la na sua frente e, para constrangimento meu, nada conseguir. Pedi-lhe que voltasse mais tarde. E foi uma amiga que, ao chegar em minha casa, explicou-me que eu havia esquecido um detalhe importante. De posse da informação, pedi ao garoto que voltasse para resolver a conta. Imaginem se a vizinhança soubesse que alguém desejoso de ser professor se atrapalhou numa simples continha de dividir...Era novembro, mês das últimas provas da quarta unidade. Gil, aluna da quinta série de escola particular, solicitou que eu lhe desse aulas. Mesmo cauteloso, resolvi aceitar o desafio. Quando Gil recebeu a prova, após as aulas que eu havia lhe dado, tinha conseguido a nota desejada o que me deixou bastante empolgado. Surgia daí o grande passo para a transformação da minha vida, o melhor incentivo para que eu, de imediato, colocasse uma placa oferecendo meus serviços. O dinheiro, pago por Gil, foi a primeira remuneração que recebi depois do acidente, fruto do meu próprio suor. É difícil descrever a emoção de ter nas mãos o primeiro fruto do trabalho. Veio o início de ano seguinte e os alunos demoraram a aparecer. Por pouco não retirei a placa. Inicialmente, eram aulas de matemática do primeiro grau, depois, do segundo grau. Com o passar do tempo, foram chegando mais alunos. Minha vida mudou bastante, passou a ter um novo sentido. Passei a ganhar um pouco mais e a comprar alguns objetos de que sempre tive necessidade. Pude, então, vivenciar melhor o meu lazer. Conheci novas pessoas: os alunos e suas respectivas famílias. Agora tinha um referencial, sabia que poderia ser identificado pela função que desempenhava e não só pelo uso da cadeira de rodas.Era novidade as pessoas me procurarem para que eu pudesse ajudá-las. Normalmente, eu só pedia ajuda e agora passava também a colaborar. Era uma espécie de troca com que, há tempo, eu sonhava. Era a teoria tornando-se realidade. Nos eventos em que eu comparecia, pregava que, praticamente todas as pessoas com limitações físicas, sensoriais ou intelectuais, tinham capacidade de desenvolver algum tipo de atividade profissional, bastando-lhes ter oportunidade. A minha pregação era correta, mas, na hora de exemplificar, citava vários exemplos e, claro, omitia que até então eu não trabalhava. Outro fator positivo é que minha mente começou a ser melhor exercitada, deixando para trás uma rotina cansativa e monótona. A grande emoção de ser chamado de professor foi algo inexplicável. A sensação de valorização de que você existe, de que é útil a alguém e de que alguém precisa de você é algo prazeroso. A satisfação da minha família e amigos era facilmente percebida, estavam sentindo-se orgulhosas com a minha evolução, sobretudo minha mãe.No início, dava aulas na varanda de minha casa, depois transformei um quarto num espaço reservado para esse fim. O mobiliário era composto de quadro, estante, mesa e cadeiras. Anos depois, conseguimos comprar um telefone para facilitar o agendamento de aulas. Dar aulas de reforço permitia-me uma reciclagem frequente do meu próprio saber. Existiam alunos que tinham fácil assimilação e outros sentiam muita dificuldade. Eu tentava facilitar da melhor forma e aplicava uma metodologia que resultasse em aprendizagem. Às vezes, alguns alunos com idade já avançada queriam continuar os estudos e me procuravam no intuito de esclarecer dúvidas. Era uma alegria ver a persistência deles. Existiam aqueles que encontravam no professor não só o profissional, mas o amigo, o companheiro, o confidente. Tive, inclusive, a alegria de ser escolhido, ocasionalmente, como pessoa de confiança de uma aluna que, em meio às explicações dos conteúdos abordados, baixou a cabeça, teve uma crise de choro e, pouco depois, expôs-me seus conflitos. Pude apontar elementos que a ajudariam na solução desses problemas.Antes de ministrar aulas, devido à ociosidade, eu ficava constantemente me lembrando do momento da queda da moto. Isso ocorria várias vezes por dia e eu perdia um tempo enorme da minha vida fazendo uma espécie de autopunição por ter sido, mesmo sem querer, o responsável pelo acidente. Com a atividade profissional, esse incômodo desapareceu.Aprovado no vestibular, optei pelo curso de Matemática. No primeiro dia de aula na Faculdade de Formação de Professores de Petrolina, fiquei meio encabulado. Afinal, além da cadeira eu já estava com vinte e nove anos e alguns fios de cabelos brancos. Contudo sentia as primeiras emoções: a algazarra nos corredores, os professores, os colegas, as primeiras explicações enfim, toda uma rotina que há muito tempo eu não vivenciava. A minha escrita era feita com lentidão. Se tentasse ser ágil, a grafia, que já não era muito boa, ficaria ilegível. Como primeira solução, levava papel carbono e os colegas me passavam as cópias no final das aulas. Pouco tempo depois, preferi ficar tirando fotocópias dos cadernos. Foi uma solução mais prática e o material ficava bem mais legível. Preocupava-me com o tratamento que as pessoas iriam me dispensar, entretanto foi fácil perceber que era preocupação boba. Os colegas, professores e funcionários tratavam-me da forma mais normal possível, como era meu desejo, sem discriminação ou superproteção, exceto uma colega de outro curso que, certa vez, disse, ao me ver resolvendo um problema de matemática, que me achava um gênio. Lembrei-lhe que eu era apenas um universitário igual à maioria daqueles que ali estavam.Um velho carrinho nos levava diariamente à Faculdade. Conduzido inicialmente por meu irmão Ednaldo, depois por minha irmã Marinalva e já nos últimos períodos por outra irmã chamada Nilda, de vez em quando, surpreendia-nos com pneu furado ou com falta de gasolina. Às vezes, nosso calhambeque dava uma tremedeira tão grande que Nilda ficava irritada, afinal não gostava de dirigir, só se aventurava por vontade de me ver estudando. De vez em quando formávamos grupos de estudos e nos preparávamos para as provas. Era comum tirar notas baixas. Estas coincidiam com a fase em que eu atendia uma maior quantidade de alunos e o tempo que sobrava para eu estudar era muito restrito. Os obstáculos físicos que eu enfrentava na Faculdade eram a falta de rampas no acesso para o auditório e a falta de banheiro acessível, que me obrigava fazer improvisações. Após dois anos de estudo, sentia o peso da rotina de ter que me deslocar diariamente. Muitas vezes ficava desestimulado quando me conscientizava da realidade existente entre os colegas formados que ganhavam salário baixo. Entretanto, reanimava-me quando observava centenas de colegas fazerem esforço para continuar os estudos. Muitos deles frequentavam as aulas diariamente, vindo de localidades distantes até de cento e vinte quilômetros. Alguns vinham em carrocerias de caminhonetas.Meu pai, todos os dias, fazia a rotina de me ajudar na hora do banho, da troca de roupa e de me colocar no carro. Muitas vezes, isso tinha que ser feito muito rápido para não chegar atrasado à Faculdade. Para minha alegria, de minha família e de tantas outras pessoas, consegui concluir o meu curso. No dia da formatura, estava eu lá, com aquela tradicional roupa preta, chapéu quadrado, pronto para receber o diploma. Conduzido por meu querido irmão Ednaldo, fui assinar o livro e, sob emoção, tremi e ocupei três linhas. Com a ajuda de três estudantes, subimos os degraus de acesso ao palco e recebi das mãos de um professor, que demonstrava estar tão emocionado quanto eu, o tão sonhado canudo. A plateia se empolgou por causa da minha cadeira de rodas e supervalorizando meu esforço, aplaudiu-me de pé. O diploma recebido foi o pouco que pude oferecer aos meus pais, irmãos e amigos, pois a conclusão de cinco anos de estudo, só foi possível graças a um perfeito trabalho em equipe. Dois anos depois, fiz pós-graduação na mesma Universidade.Anos depois, aprovado em concurso, comecei a ministrar aulas numa escola municipal, no momento em que eu mais precisava, pois a despesa aumentara e minha renda anterior era precária.Com o passar dos tempos conheci Elieda que tornou-se minha esposa. Hoje temos três filhos. Eduardo, Sofia e Fernando.A cadeira de rodas, que tanto me assustou no início, é um relevante instrumento que me permite lecionar, praticar meus deveres, cobrar meus direitos de cidadão e viver na minha amada Petrolina-PE, ao lado de familiares e amigos. Por tudo isso, fico eternamente grato à Deus, por viver com liberdade e plenitude, trabalhando e militando nas áreas da inclusão e da literatura.Hélio de Araújo é especialista em Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Veja o Link Original

0
Votos

Compartilhe

Url Curta:
Twitter
Facebook
Orkut
Sobre o Blog
Nome do Blog: Blog do Patricio Nunes

Descrição: Este blog tem por finalidade postar matéria sobre notícias e qualquer coisa legal que chame a atenção do leitor.

Cidade: Petrolina

Estado: PE

Cadastro desde: 2012-08-04

URL: http://paticionunes.blogspot.com.br/

Mais notícias deste Blog

Feira de artes expõe trabalhos de crianças e adolescentes autistas em Brasília

Dia do Trabalho tem protestos, prestação de serviços e shows pelo país

Maduro convoca Assembleia Nacional Constituinte na Venezuela

Temer: reforma trabalhista trará “inúmeras vantagens” a quem não tinha direitos

Goleiro Bruno cumprirá restante da pena na cidade mineira de Varginha

Ataque a aldeia deixa 13 índios feridos no Maranhão

Semáforo será instalado nas aproximações do Distrito Industrial em Petrolina

No Recife, Dia do Trabalho tem manifestação contra reforma trabalhista

Em São Paulo, sem-teto detidos durante greve têm prisão preventiva decretada

Um sonho vai virando realidade, a primeira Enoteca pública do mundo será um orgulho para o povo de Lagoa Grande

Casa do sanfoneiro ficou lotada na sua reabertura

Medalha Lucila Angelim chega a sua 15ª edição reconhecendo o trabalho de mulheres e estudantes que fazem a diferença

 

 


Compartilhe

Blog8 - Compartilhe notícias - Todos os direitos reservados

Inicial - Ajuda - Termos de uso - Contato -" Minuto Receitas